. Da criança que ele é – Doutores da Alegria

Para melhor visualização do site, utilizar navegador Google Chrome.

Blog

Da criança que ele é

6 de maio de 2013
Tempo de leitura: 2 minutos

Doutores da Alegria

Comentario 11
Compartilhar 0


As besteirologistas Xaveco Fritza e Juca Pinduca foram alertadas sobre um caso delicado na Pediatria do Hospital do Mandaqui.

O menino D., de treze anos, estava internado. Por causa de um acerto de contas entre traficantes, ele apanhou e levou tiros na perna. Ele trouxe consigo todo o peso da tragédia de sua vida, não somente pelo estado clínico que se encontrava, mas principalmente pelo linguajar, com muitas frases obscenas, palavrões e ameaças.

Munidas de música, poesia e bobagens, as palhaças entraram em seu quarto, que estava bastante pesado para as outras três crianças, mais ou menos da mesma idade, juntamente com seus acompanhantes.  Todos apavorados com a situação.

As duas sabiam que atrás daquela fúria existia um olhar de criança escondido. Esta era a única certeza que elas tinham e com isso trabalharam. Após muitas palavras de recusa, D. se escondeu nas cobertas. Até que… 

Ei! E aquela gaita nas costas dela? – perguntou ele para a Dra. Xaveco, que logo respondeu:

Não é gaita, é um acordeon. Uma sanfona… Quer ver?

Posso tocar?, disse ele.

Você sabe? 

E ele, orgulhoso demais para dizer que não sabia: Sei!

A besteirologista então propôs um teste e disse que, se ele passasse, poderia tocar no forró junto com elas. Ele achou o absurdo engraçado, esboçando pela primeira vez um sorrisoA Dra. Pinduca entregou a ele o acordeon e ajudou com os acordes. O menino se entregou totalmente à curiosidade daquele som. Após saciar a sua vontade, como criança inquieta que é, disse que queria tocar o outro instrumento. 

Esta é uma clarineta. Você não pode tocar porque tem de colocar a boca aqui e eu já fiz isso, entendeu? Podemos fazer uma serenata se você aplaudir no final. Topa? 

Diante da promessa de aplausos, elas prepararam um pequeno palco com as escadinhas da cama e tocaram como se estivessem em um grande concerto. E estavam mesmo… Quando a música terminou, todos aplaudiram, inclusive o menino!

Exageradamente emocionadas com o suposto sucesso do concerto, as besteirologistas distribuíram autógrafos nos seus bloquinhos coloridos com frases absurdas, porém amorosas. Antes de sair do quarto, a Dra. Xaveco viu o menino arrancando um pedaço de esparadrapo do seu curativo. 

O que você está fazendo?, perguntou ela.

Quero colar essa lembrança aqui na cama, disse olhando o pequeno papel com muito carinho. Apesar de todo o contexto social que o embalara, D. era uma criança envolvida em um momento de sonho e poesia.

Dra. Xaveco Fritza (Val de Carvalho)
Dra. Dona Juca Pinduca (Juliana Gontijo)
Hospital do Mandaqui – São Paulo
Março de 2013 



Categorias


Lá do arquivo

Doutores da Alegria


Postado em:

Tags

música, poesia, social, transformação

11
Deixe um comentário

avatar
11 Comentar tópicos
0 Respostas do Tópico
0 Seguidores
 
Comentário mais reagido
Tópico de comentário mais quente
11 Autores de comentários
ELENITE ARAUJOAlvinhoIzabel CristinaElizabethValéria Lima Autores recentes de comentários
  Receber notificação  
Mais recentes Mais antigos Mais votados
Notificação de
Jack
Visitante
Jack
Visitante

Com música, poesia e besteiras(risos) vocês realizam a dura tarefa de lembrar uma criança de que ele é apenas uma criança!! Que trabalho maravilhoso. Parabéns!!

Edelweiss
Visitante
Visitante

Coisa mais lindaaaaa!!! Olhar além das palavras, dos gestos e de tudo o que aparenta ser… Trabalho digno de muitos aplausos \o/

Natany
Visitante
Visitante

Emocionante, parabéns pela sensibilidade, amor, carinho e alegria. Belo trabalho!

Flávia
Visitante
Flávia
Visitante

Caíram lágrimas. Que coisa bonita. Vocês fazem um trabalho incrível e tiram sorrisos de pessoas em estados bem complexos. Fazem com que o paciente transcenda o que está ocorrendo por alguns instantes e que tenho certeza que muda o tratamento para muito melhor. Admiro muito o trabalho de vocês! Parabéns 🙂

Luciana Uyeda
Visitante
Luciana Uyeda
Visitante

Queridos,choro quando leio seus relatos,me emociono,também encontro em meu caminho besteirológico muitas histórias…Histórias,senhoras histórias de encontros assim,pulsantes,transformadores e sou infinitamente grata à vocês, em especial ao querido Wellintong Nogueira por ter trazido este amor imenso para nosso país.Amo vocês!

Existem 11 Comentários.